Arbitragem: verdades e mitos

A Arbi­tra­gem como méto­do alter­na­ti­vo ao Poder Judi­ciá­rio, para diri­mir lití­gi­os rela­ti­vos a direi­tos patri­mo­ni­ais dis­po­ní­veis entrou em vigor no Bra­sil com o adven­to da Lei 9.307/96. O obje­ti­vo fun­da­men­tal da Arbi­tra­gem é pro­pi­ci­ar   solu­ções céle­res, rápi­das e mais efi­ci­en­tes dos con­fli­tos. Decor­ri­dos mais de duas déca­das ain­da   exis­tem alguns aspec­tos quan­to a sua efe­ti­vi­da­de que mere­cem ser devi­da­men­te ava­li­a­dos   e   que abor­da­mos a seguir, segun­do pes­qui­sas rea­li­za­das e nos­so enten­di­men­to da maté­ria   sem pre­ten­der esgo­tar o tema. 

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1.   A ARBITRAGEM É UM MÉTODO MAIS EFICIENTE E MAIS RÁPIDO QUE A VIA JUDICIAL?

VERDADE: Na Arbi­tra­gem as par­tes podem esco­lher livre­men­te os árbi­tros de acor­do com a espe­ci­a­li­da­de téc­ni­ca que seja mais útil à solu­ção da ques­tão em con­cre­to, as regras de direi­to que serão apli­ca­das na arbi­tra­gem e a sen­ten­ça arbi­tral acon­te­ce no pra­zo de seis meses ou no pra­zo esti­pu­la­do pelas Par­tes sen­do definitiva

No judi­ciá­rio foram cri­a­das as varas empre­sa­ri­ais espe­ci­a­li­za­das­nas quais os juí­zes seri­am pre­pa­ra­dos para resol­ver ques­tões em maté­ria empre­sa­ri­al e nego­ci­al. O pro­ble­ma é que as ques­tões jurí­di­cas estão se mos­tran­do cada vez mais vari­a­das e inte­gra­das em diver­sos micros­sis­te­mas, e não é pos­sí­vel ter juí­zes espe­ci­a­lis­tas e com uma visão abran­gen­te em todas as áre­as.  Outro aspec­to é que o núme­ro de pro­ces­sos dis­tri­buí­dos a estas varas é mui­to gran­de e com a pos­si­bi­li­da­de de inú­me­ros recur­sos a solu­ção defi­ni­ti­va do con­fli­to com o trân­si­to em jul­ga­do da sen­ten­ça pode levar mui­tos anos.

 A rapi­dez do pro­ce­di­men­to arbi­tral, cons­ti­tui, por­tan­to, impor­tan­te fator para sua esco­lha como uma alter­na­ti­va céle­re à moro­si­da­de do sis­te­ma judicial.

2.    O PROCEDIMENTO ARBITRAL É MAIS CARO QUE O PROCESSO JUDICIAL? 

DEPENDE: Essa é uma ques­tão de aná­li­se de cus­to x bene­fí­cio.  Em ter­mos abso­lu­tos o pro­ce­di­men­to arbi­tral tem um cus­to bem mai­or que o pro­ces­so judi­ci­al. Taxas de ins­ti­tui­ção e admi­nis­tra­ção, hono­rá­ri­os dos peri­tos e demais des­pe­sas da arbi­tra­gem de con­for­mi­da­de com o regu­la­men­to de cada Câma­ra de Arbitragem. 

Na Arbi­tra­gem as Par­tes esco­lhem os árbi­tros espe­ci­a­li­za­dos na maté­ria ou setor obje­to do lití­gio e a sen­ten­ça arbi­tral acon­te­ce no pra­zo esti­pu­la­do, sen­do definitiva.

No pro­ces­so judi­ci­al o cus­to não se res­trin­ge às taxas e emo­lu­men­tos. Os mai­o­res cus­tos são decor­ren­tes da demo­ra para a reso­lu­ção do lití­gio decor­ren­te da pos­si­bi­li­da­de de inú­me­ros recur­sos e do ris­co de jul­ga­men­to por quem não conhe­ce a maté­ria e nem as espe­ci­fi­ci­da­des do setor. 

3.    AS VANTAGENS DE CELERIDADE E EFETIVIDADE, PRESENTES NA ARBITRAGEM, PODEM SER MINIMIZADAS NA FASE DE CUMPRIMENTO E EXECUÇÃO DA SENTENÇA

VERDADE: A sen­ten­ça arbi­tral sen­do con­de­na­tó­ria, cons­ti­tui títu­lo exe­cu­ti­vo judi­ci­al. cujo cum­pri­men­to de sen­ten­ça se dará por via judi­ci­al, nos ter­mos do arti­go 515 do CPC. Ou seja, não se atri­buiu aos árbi­tros o poder de coer­ção (poder juris­di­ci­o­nal), ou seja, o poder de impor coer­ci­ti­va­men­te suas deci­sões. Se a par­te ven­ci­da não cum­prir espon­ta­ne­a­men­te a deci­são arbi­tral con­de­na­tó­ria, o cum­pri­men­to de sen­ten­ça será obje­to de um pro­ces­so autô­no­mo que deve­rá ser pro­pos­to pela par­te inte­res­sa­da no juí­zo com­pe­ten­te nos ter­mos do arti­go 515, VI do CPC-2015. Toda­via, se a sen­ten­ça for ilí­qui­da, ou seja, não deter­mi­na o valor ou não indi­vi­dua o obje­to da con­de­na­ção, deve-se pro­ce­der a reque­ri­men­to do cre­dor ou do deve­dor, à fase de liqui­da­ção de sen­ten­ça como requi­si­to para que se aden­tre ao cum­pri­men­to de sen­ten­ça. Nes­sa hipó­te­se sua exe­cu­ção ocor­re­rá no âmbi­to do pro­ces­so de liqui­da­ção e não de for­ma autô­no­ma nos ter­mos do atri­go e 516 III do CPC-2015.

A dura­ção de uma ação de liqui­da­ção de sen­ten­ça no judi­ciá­rio, como requi­si­to ao cum­pri­men­to de sen­ten­ça arbi­tral, as moda­li­da­des de liqui­da­ção e de recur­sos cabí­veis das deci­sões na fase pro­ces­su­al podem mini­mi­zar as van­ta­gens de cele­ri­da­de e efe­ti­vi­da­de, pre­sen­tes na arbi­tra­gem.   

A com­pe­tên­cia quan­to a liqui­da­ção é tema con­tro­ver­so para a doutrina.

O Pro­fes­sor Car­los Alber­to Car­mo­na enten­de que “a liqui­da­ção deve ser pro­pos­ta peran­te um juí­zo esta­tal, sal­vo esti­pu­la­ção em con­trá­rio na con­ven­ção de arbi­tra­gem”. (CARMONA, 1993 pp. 112–113).Nes­se sen­ti­do, o Pro­fes­sor Ara­ken de Assis enten­de que “as nor­mas de com­pe­tên­cia, rela­ti­vas ao cum­pri­men­to de sen­ten­ça, seri­am igual­men­te apli­cá­veis à liqui­da­ção da sen­ten­ça”. (ASSIS, 2016 p. 529). Em con­tra­pon­to a essas visões, o Pro­fes­sor Fran­cis­co José Caha­li defen­de “que a com­pe­tên­cia é do árbi­tro, a não ser que a pró­pria con­ven­ção de arbi­tra­gem tenha afas­ta­do essa com­pe­tên­cia”. (CAHALI, 2011 pp. 263–266).

4. O TEMPO DE TRAMITAÇÃO DO PROCEDIMENTO ARBITRAL É MAIS RÁPIDO QUE A TRAMITAÇÃO DO PROCESSO JUDICIAL –

DEPENDE: De acor­do com a Lei de Arbi­tra­gem, a sen­ten­ça será pro­fe­ri­da no pra­zo con­ven­ci­o­na­do pelas par­tes no com­pro­mis­so arbi­tral. Não ten­do sido con­ven­ci­o­na­do, o pra­zo para a apre­sen­ta­ção da sen­ten­ça é de seis meses, con­ta­do da ins­ti­tui­ção da arbi­tra­gem ou da subs­ti­tui­ção do árbi­tro. Essa pos­si­bi­li­da­de de as Par­tes pode­rem esta­be­le­cer o pra­zo em que se espe­ra razoá­vel para a solu­ção do con­fli­to é uma das van­ta­gens em rela­ção ao pro­ces­so judi­ci­al. Embo­ra não exis­ta um tipo de recur­so apto a refor­mar o méri­to da deci­são pro­la­ta­da pelo árbi­tro fato é que  o mes­mo não tem poder para exe­cu­tar suas deci­sões e a par­te pode­rá reque­rer ao Esta­do que apre­cie o méri­to e a vali­da­de da sen­ten­ça arbitral.

De acor­do com o Rela­tó­rio “Jus­ti­ça em Núme­ros 2019 “, pro­du­zi­do pelo Con­se­lho Naci­o­nal de Jus­ti­ça (CNJ)), os tem­pos de tra­mi­ta­ção dos pro­ces­sos judi­ci­ais, fases de Conhe­ci­men­to leva em média 1 ano e 6 meses para rece­ber uma sen­ten­ça  e 3 anos e 3 meses na fase de Execuçã0. Por tan­to uma média de 4 anos e 9 meses. — https://www.cnj.jus.br/julgamento-dos-processos-mais-antigos-reduz-tempo-medio-do-acervo/

De acor­do com  Rena­to Duar­te Fran­co de Mora­es, advo­ga­do do Cas­ci­o­ne Puli­no Bou­los Advo­ga­dos, são pou­cas as infor­ma­ções sobre o tem­po de tra­mi­ta­ção dos pro­ce­di­men­tos arbi­trais no Bra­sil. Den­tre os pou­cos dados exis­ten­tes, o Cen­tro de Arbi­tra­gem e Medi­a­ção da Câma­ra de Comér­cio Bra­sil-Cana­dá infor­ma que a dura­ção média dos pro­ce­di­men­tos ini­ci­a­dos entre 2013 e 2015, naque­le órgão, é de 15 meses e meio. https://www.conjur.com.br/2019-mar-01/renato-moraes-tempo-tramitacao-processos-arbitral-judicial

5.             VANTAGENS DA ARBITRAGEM COMPARADA AO PROCESSO JUDICIAL NO BRASIL

De acor­do com pes­qui­sa rea­li­za­da pelo Comi­tê Bra­si­lei­ro de Arbi­tra­gem  – CBar, em 2016,   as prin­ci­pais van­ta­gens con­cre­tas da arbi­tra­gem, quan­do com­pa­ra­da ao pro­ces­so judi­ci­al, indi­cou  em pri­mei­ro lugar “o tem­po neces­sá­rio para ter uma solu­ção defi­ni­ti­va para o con­fli­to” (37% das res­pos­tas), segui­do do “cará­ter téc­ni­co e a qua­li­da­de das deci­sões” (27% das res­pos­tas). Mas a “fle­xi­bi­li­da­de e infor­ma­li­da­de do pro­ce­di­men­to”, apon­ta­da ape­nas por 4% dos entre­vis­ta­dos como a prin­ci­pal van­ta­gem da arbi­tra­gem, é indi­ca­da por 34% deles como uma das três prin­ci­pais van­ta­gens, apa­re­cen­do como ter­cei­ro atri­bu­to mais mencionado.

Per­gun­tou-se ain­da aos entre­vis­ta­dos se veem algu­ma des­van­ta­gem na arbi­tra­gem, tam­bém quan­do com­pa­ra­da aos pro­ces­sos judi­ci­ais. Boa par­te dos res­pon­den­tes dis­se não ver nenhu­ma des­van­ta­gem na arbi­tra­gem, mas 97 deles (cer­ca de 60%) afir­ma­ram haver algu­ma. Esse segun­do gru­po foi então ques­ti­o­na­do sobre qual seria a prin­ci­pal des­van­ta­gem e o “cus­to da arbi­tra­gem” apa­re­ce com lar­ga mar­gem em pri­mei­ro lugar (60%). Ape­nas 9% dos mem­bros des­se gru­po (9 entre­vis­ta­dos) indi­ca­ram “difi­cul­da­des para a inte­gra­ção de ter­cei­ros à arbi­tra­gem” e 8% (8 entre­vis­ta­dos) a “ausên­cia de recur­sos”, mes­mo núme­ro que apon­tou “a qua­li­da­de das deci­sões ou dos árbi­tros”. (Home » Pes­qui­sa CBAr-ABE­Arb 2016)